Estudo aponta falhas de big techs na eleição e acende alerta no RN
Levantamento da UFRJ mostra que Meta, Google, Kwai, TikTok e YouTube mantiveram anúncios e recomendações eleitorais no 1º turno, período vetado pelo TSE, com impacto direto para eleitores do RN.
Por Tribuna RN
Publicado em 06 de outubro de 2026 às 23:42 • 6 min de leitura • Cobertura Regional • Fonte: RSS (Novo Notícias)

NATAL/RN — Um monitoramento acadêmico divulgado nesta terça-feira (6) indica que as principais plataformas digitais mantiveram propaganda e sugestões de conteúdo eleitoral no domingo (4), data da etapa inicial do pleito de 2026, quando esse tipo de impulso já estava vedado. O apanhado é do núcleo da UFRJ que fiscaliza grandes plataformas, o NetLab, e chegou ao Rio Grande do Norte por meio de veículo local, a partir de texto da agência pública federal de notícias.
Para o eleitor potiguar, o tema interessa de perto: foi no celular, entre Instagram, WhatsApp, YouTube e TikTok, que muita gente em Natal, Mossoró, Caicó e no interior acompanhou candidatos, checou promessas e recebeu links na véspera e na data do pleito.
O que a regra do TSE proibia na data do pleito
Segundo a Corte eleitoral, a difusão remunerada ou turbinada de material de campanha na rede fica impedida desde dois dias antes do pleito e segue bloqueada até um dia depois. A mesma norma obriga serviços que operam com indicação automática a retirar desses circuitos os perfis e canais de concorrentes comunicados à Justiça Eleitoral, salvo exceções previstas em lei.
De acordo com os pesquisadores, a checagem combinou consultas manuais com varreduras automatizadas nas centrais públicas de publicidade mantidas pelas empresas, além de conexões por interface de programação, espécie de canal oficial de dados dessas redes.
Meta concentrou maior volume e teve até golpe com nome do TSE
O maior conjunto de peças fora do prazo, ainda conforme o núcleo universitário, apareceu no ecossistema da Meta, que reúne WhatsApp, Facebook, Instagram, Messenger e a rede de audiência da companhia. Os técnicos falam em 568 inserções veiculadas de modo incompatível com o período de silêncio.
Outro achado destacado pelos autores envolve seis peças que imitavam comunicação da Justiça Eleitoral. Esses materiais empregavam símbolos e linguagem associados ao TSE e anunciavam uma suposta votação à distância, pelo aparelho ou em domicílio, o que não existe. Em algumas versões, o texto citava enfermidade, dificuldade de deslocamento ou chuva forte para convencer o usuário, que era levado a páginas onde informava o CPF para supostamente iniciar o voto.
- Meta: 568 peças apontadas como veiculadas no intervalo proibido, além de 6 anúncios com falsa identidade da Justiça Eleitoral;
- Golpe do voto remoto: páginas falsas pediam dados pessoais sob pretexto de votar pelo celular;
- Método: cruzamento entre o que a biblioteca pública exibia e o que a ferramenta de dados da empresa retornava.
Kwai, Google, TikTok e YouTube também aparecem no relatório
No Kwai, os pesquisadores relatam 18 peças de conteúdo eleitoral ativas na data do pleito e outras quatro marcadas como pausadas no acervo da plataforma. Três dessas quatro teriam circulado entre o dia 1º e o dia 3, dentro da janela de resguardo. O documento menciona ainda 45 peças vinculadas a dez perfis de campanha cuja data final teria sido prorrogada até a votação. Itens que se encerrariam no dia 3 seguiam marcados como ativos na data da escolha. O próprio laboratório pondera que não conseguiu validar por completo esse ponto por desencontro entre planilhas exportadas e o que a vitrine pública exibia.
No Google, a varredura localizou uma peça identificada no dia 3 que continuava disponível na estrutura de anúncios da companhia na data da votação.
Fora do campo pago, a equipe acompanhou mecanismos de sugestão das três principais redes de vídeo para saber se seguiam indicando publicações de contas oficiais de concorrentes. Entre o dia 3 e a data do pleito, foram localizados dezoito registros em vídeo ligados a sete candidaturas, sugeridos numa das plataformas, e dezessete peças ligadas a seis candidaturas, sugeridas noutra. No Instagram, essa apuração não encontrou indicações desse tipo no intervalo observado.
- Kwai: 18 ativos na data do voto, 4 pausados e 45 com encerramento estendido, ligados a dez perfis;
- Google: 1 peça do dia 3 ainda acessível na data da votação;
- Recomendação: dezoito registros numa plataforma e dezessete noutra, entre o dia 3 e o pleito; nada localizado no Instagram.
Transparência limitada dificulta fiscalizar, diz universidade
O NetLab sustenta que lacunas de transparência atrapalham o controle externo. No caso da companhia de Zuckerberg, haveria contraste entre a vitrine pública da biblioteca e os registros obtidos pela via programática, com itens rotulados como inativos em uma tela e presentes em listas de ativos em outra. No Kwai, também haveria desencontro entre a vitrine e os arquivos para download. Google, LinkedIn e TikTok, por sua vez, entregariam dados considerados restritos para um acompanhamento contínuo da propaganda, segundo os autores.
Procuradas pela agência pública, as companhias apresentaram posicionamentos. A Meta afirmou que atua em linha com a legislação e que a amostra não traduziria a dimensão do trabalho de integridade. O Kwai disse aguardar acesso ao material citado, reforçou compromisso com as normas brasileiras e com as resoluções do TSE e informou ter mantido operação especial com moderação reforçada, além de restrição de novos criativos eleitorais desde 1º de outubro. O TikTok declarou tratar a higidez do espaço virtual durante o período eleitoral como algo prioritário, citou parceria com o TSE e informou ter retirado quase 349 mil vídeos no país do meio do ano até setembro por violação de políticas cívicas, desinformação e enganos gerados por inteligência artificial. O Google afirmou conectar usuários a informações confiáveis, lembrou que veta publicidade partidária no país desde 2024 e avaliou que a localização de apenas uma peça demonstraria eficácia da prevenção.
O que isso muda para o eleitor do RN
No Rio Grande do Norte, onde a disputa nacional divide atenção com as campanhas estadual e locais, a circulação de impulsionamento na data do pleito pode confundir principalmente quem decide o voto na última hora. A orientação de especialistas eleitorais ouvidos em coberturas do tema é simples: desconfiar de promessa de voto pelo celular, nunca informar CPF em página recebida por link e confirmar qualquer comunicado em canais oficiais da Justiça Eleitoral, como o site do TSE, o do TRE-RN ou o aplicativo e-Título.
Até a publicação desta matéria, não havia anúncio de punição específica ligada aos casos citados. O estudo funciona como alerta para o segundo turno, marcado para 25 de outubro, quando a fiscalização tende a se intensificar sobre bibliotecas de anúncios, denúncias pelo aplicativo Pardal e monitoramento de plataformas.
Conclusão
O levantamento da UFRJ sugere que o bloqueio de propaganda paga e de recomendações na data da etapa inicial não foi cumprido de forma integral pelas grandes plataformas. Os números mais expressivos envolvem a Meta, mas há registros também em Kwai, Google, TikTok e YouTube, sempre segundo a metodologia descrita pelos pesquisadores. Para o leitor potiguar, o recado prático é redobrar o cuidado com links, anúncios e supostos avisos da Justiça Eleitoral no segundo turno e priorizar fontes oficiais. Novos detalhes sobre eventuais apurações devem ser divulgados pelos órgãos competentes nos próximos dias.
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