RN tem mil na fila de transplante e família nega doar em 6 de cada 10 casos
Mais de mil potiguares esperam por córnea, rim e medula no RN. Coordenadora da Central de Transplantes explica protocolo seguro e tenta virar o jogo contra a recusa de 63% das famílias.
Por Tribuna RN
Publicado em 28 de setembro de 2026 às 15:55 • 4 min de leitura • Cobertura Regional • Fonte: RSS (Tribuna do Norte)

NATAL/RN — Mais de mil pessoas aguardam hoje por um transplante no Rio Grande do Norte, enquanto seis em cada dez famílias abordadas dizem não à doação. O dado foi apresentado nesta segunda-feira, 28, pela coordenadora da Central de Transplantes do RN, Rogéria Medeiros, em entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan News Natal, na frequência 93,5 FM. Segundo ela, o índice de recusa familiar chega a 63% no estado e trava o avanço da fila.
A mensagem central levada ao ar foi direta: doar é um processo técnico, fiscalizado e seguro. De acordo com a coordenadora, a meta é fazer a população potiguar enxergar o transplante como uma realidade consolidada dentro do próprio estado e estimular o sim em vida, conversado em casa, para que a família respeite a vontade do doador na hora mais difícil.
“Que as pessoas saibam que o transplante é uma realidade do nosso estado e se sintam mais seguras para dizer sim”, afirmou Rogéria Medeiros, coordenadora da Central de Transplantes do RN, em entrevista na manhã desta segunda-feira.
Quem espera na fila e quais órgãos mais andam no RN
O retrato detalhado pela Central ajuda a entender onde está o gargalo potiguar. Do total de aguardantes, o maior volume é de córnea, seguido por rim e medula óssea. O transplante cardíaco vive um momento diferente, sem pacientes na fila após a transferência do último receptor em julho.
Os números apresentados são:
- Mais de 600 pessoas aguardam por transplante de córnea no estado.
- Cerca de 370 pacientes esperam por um rim.
- Aproximadamente 30 pessoas aguardam por medula óssea.
- Fila de coração zerada após a transferência do último receptor, em julho.
- Um único doador pode beneficiar de seis a dez receptores diferentes.
Segundo a coordenadora, o procedimento mais frequente em solo potiguar é o de córnea, considerado de menor complexidade para quem recebe, com rotina comparável à de uma cirurgia de catarata. O fígado, por outro lado, não é transplantado no RN e segue para outras centrais do país. Nas doações realizadas em vida, o rim concentra o maior movimento.
Para quem vive na Grande Natal, no Oeste, no Seridó ou no interior, o recado é prático: a fila anda quando a notificação hospitalar funciona e quando a família autoriza. Os hospitais Walfredo Gurgel, em Natal, e Tarcísio Maia, em Mossoró, aparecem como os maiores notificadores e doadores do estado, sustentando a rede estadual de captação.
Como funciona o protocolo e por que a família decide
Durante a entrevista, Rogéria detalhou o passo a passo que costuma gerar dúvidas e medo. Tudo começa com a identificação de um possível doador com quadro de morte encefálica. A partir daí, a equipe cumpre um intervalo de observação de 24 horas para checar reflexos e aplica os exames previstos no protocolo nacional definido pelo Conselho Federal de Medicina.
Somente após essa confirmação técnica é avaliada a viabilidade de cada órgão, levando em conta idade do doador e condições clínicas. A lei brasileira exige autorização de parente de primeiro grau. No caso de crianças e adolescentes, a permissão precisa partir do pai e da mãe. Ainda segundo a Central, o corpo do doador não apresenta diferença visível no velório em relação a quem não doou, ponto que costuma pesar na decisão de muitas famílias.
A coordenadora também comentou os motivos da negativa:
- Manutenção da integridade do corpo, argumento mais citado nas entrevistas familiares.
- Questões religiosas, que seguem aparecendo, mas com frequência bem menor do que no passado, de acordo com a Central.
- Desinformação sobre segurança do processo, alvo principal da campanha atual por informação.
Apesar do crescimento das doações desde 2025, puxado por córneas e rins, a estrutura ainda opera no limite. A Central aponta necessidade de ampliar equipes, recompor recursos humanos e melhorar a base física para dar conta das notificações em todas as regiões potiguares.
Cooperação nova e mobilização nas ruas
Para tentar destravar a captação, a Central firmou neste ano um acordo de cooperação técnica com o Serviço de Verificação de Óbitos, com foco na ampliação da doação de córneas. A parceria organiza fluxo, agiliza avaliação e evita perda de tecidos por demora na notificação.
No último sábado, a Central e o Governo do Estado promoveram a primeira Corrida pela Vida, com inscrição gratuita. A proposta foi levar o tema para fora do hospital, reunindo corredores, famílias, profissionais de saúde e pacientes transplantados em um ato público pela doação.
Conclusão
O cenário no RN resume um paradoxo: a técnica existe, a rede hospitalar notifica e a fila é mapeada, mas a decisão final esbarra na recusa dentro de casa. Enquanto 63% das respostas seguem negativas, mais de mil potiguares permanecem à espera de córnea, rim ou medula para retomar enxergar, sair da diálise ou vencer uma doença do sangue.
A orientação da Central é simples e pode ser feita hoje: converse com a família sobre o desejo de doar, registre a vontade e busque informação apenas em canais oficiais, como a Central de Transplantes, a Secretaria Estadual de Saúde e as equipes dos hospitais Walfredo Gurgel e Tarcísio Maia. Novos balanços devem ser divulgados pelos órgãos responsáveis, e a expectativa é que ações como a cooperação com o SVO e eventos populares ajudem a transformar informação em autorização.
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