Vento que gera energia também move turismo e empregos no litoral do RN
Com 308 parques e mais de 10 GW instalados, energia eólica divide o litoral com kitesurfe e pousadas; RN ainda estuda geração no mar e o desafio da convivência.
Por Tribuna RN
Publicado em 26 de setembro de 2026 às 16:55 • 4 min de leitura • Cobertura Regional • Fonte: RSS (Agora RN)

SÃO MIGUEL DO GOSTOSO/RN — O mesmo vento que gira milhares de aerogeradores espalhados pelo Rio Grande do Norte também enche pousadas, movimenta restaurantes e atrai atletas para o litoral potiguar. De Serra do Mel, na Costa Branca, a São Miguel do Gostoso, no Mato Grande, o Estado transformou sua principal característica natural em duas fontes de renda ao mesmo tempo: eletricidade e turismo. O desafio, agora, é fazer essas duas economias conviverem sem que uma prejudique a outra — debate que deve se ampliar com os projetos de geração de energia no mar.
Um estado movido a vento
Os números mostram o tamanho da presença eólica em solo potiguar. Segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), o Rio Grande do Norte reunia, em 2025, um conjunto expressivo de empreendimentos em operação:
- 308 parques eólicos instalados em território potiguar;
- 3.446 aerogeradores em funcionamento;
- Mais de 10 GW de potência instalada;
- 639,57 MW de expansão da matriz elétrica entre janeiro e agosto de 2026, de acordo com a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
No cenário nacional, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), vinculada ao Ministério de Minas e Energia, registra que a fonte eólica produziu 116,5 TWh no Brasil em 2025, com crescimento de 8,2% sobre 2024, e que a geração centralizada do país alcançou 34.689 MW de capacidade instalada. O Rio Grande do Norte segue como um dos principais polos dessa expansão e continua recebendo novos projetos ao longo de 2026.
Praia, prancha e pousada cheia
Enquanto as torres ocupam o interior e o litoral, as praias da mesma região recebem outro tipo de investimento: o turista em busca de vento. São Miguel do Gostoso é o exemplo mais visível. A economia local combina agricultura, pesca e turismo, mas a própria prefeitura reconhece que o fluxo de visitantes ganhou força a partir dos anos 2000, impulsionado pelas condições favoráveis ao kitesurfe e ao windsurfe — e, mais recentemente, ao wingfoil, modalidade em que o atleta usa prancha com hydrofoil e asa movida pelo vento.
A Empresa Potiguar de Promoção Turística (Emprotur) já trata os ventos como ativo turístico. São Miguel do Gostoso e Touros sediaram etapas de competições de wingfoil atraídas exatamente pelas condições naturais da costa. Em um desses eventos, a Emprotur estimou público entre 500 e mil pessoas e associou a competição à movimentação do comércio local e à projeção dos destinos no mercado de turismo esportivo. O Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável do Polo Costa das Dunas, da Secretaria de Estado do Turismo (Setur-RN), também relaciona o município ao turismo de aventura por causa do kitesurfe.
A cadeia beneficiada vai além das escolinhas de vela:
- Hospedagem e alimentação: pousadas, restaurantes e bares recebem atletas e acompanhantes;
- Serviços: transporte, aluguel de equipamentos e comércio local giram com o calendário esportivo;
- Visitantes estrangeiros: 25.919 turistas internacionais entraram no Brasil pelo RN em 2024, alta de 27,25% sobre 2023, segundo dados da Embratur, da Polícia Federal e do Ministério do Turismo — e só no primeiro semestre de 2025 foram 15.573 entradas, crescimento de 39,79%, com 63,5% viajando a lazer.
A convivência, porém, exige cuidado. Em Galinhos, a instalação de empreendimentos eólicos gerou discussões sobre paisagem, dunas, pesca e passeios de barco e de bugue. Em audiência acompanhada pelo Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN), moradores levantaram dúvidas sobre possíveis efeitos dos parques nas atividades turísticas e tradicionais. O recado é claro: sem planejamento, a torre que gera energia pode comprometer o cenário que atrai o visitante.
O mar como nova fronteira
A próxima etapa dessa disputa por espaço pode acontecer no oceano. Em 2025, o Rio Grande do Norte recebeu a primeira licença prévia concedida pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para um projeto-piloto de eólica offshore no Brasil: o Sítio de Testes de Aerogeradores de Areia Branca, com dois equipamentos e potência conjunta de 24,5 MW, desenvolvido pelo Instituto Senai de Inovação em Energias Renováveis (ISI-ER) para pesquisa e desenvolvimento tecnológico.
O interesse empresarial é bem maior que o piloto. Em março de 2025, os projetos offshore em licenciamento no litoral potiguar somavam 25.468 MW em potencial projetado — número que indica intenção de investimento, não capacidade instalada. O próprio Ibama inclui turismo, pesca artesanal, navegação, aves, tartarugas, mamíferos marinhos e ambientes recifais entre os aspectos a avaliar antes de liberar cada empreendimento.
Conclusão
O vento potiguar já sustenta duas economias: a dos megawatts, que atrai investimentos e amplia a matriz elétrica, e a das pranchas e pousadas, que gera emprego e renda nos municípios do litoral. O futuro das duas depende das decisões sobre uso do território — em terra e no mar. Se o planejamento garantir que parques, dunas, praias e comunidades pesqueiras convivam, o Estado pode transformar o vento em vantagem dupla: energia para crescer e turismo para distribuir os ganhos. Novos licenciamentos e competições esportivas devem ditar o ritmo desse equilíbrio nos próximos meses.
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