Torneio leiteiro da Festa do Boi avalia qualidade do leite e orienta criador no RN
Competição da 64ª edição no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim, analisa gordura, proteína e sanidade do rebanho com apoio da UFRN para melhorar genética e renda.
Por Tribuna RN
Publicado em 12 de outubro de 2026 às 21:22 • 3 min de leitura • Cobertura Regional • Fonte: RSS (Tribuna do Norte)

PARNAMIRIM/RN — O tradicional torneio leiteiro da Festa do Boi mudou de patamar na 64ª edição, realizada até o sábado, 17 de outubro, no Parque Aristófanes Fernandes, em Parnamirim, na Grande Natal. Neste ano, a disputa deixou de olhar apenas para a quantidade de leite tirada na ordenha e passou a examinar também a composição e a qualidade do produto, com análises de laboratório que ajudam o criador potiguar a decidir sobre genética, alimentação e manejo.
De acordo com a organização, participam 33 vacas das raças Sindi, Guzerá e Sindolando, bases importantes da pecuária nordestina pela rusticidade e adaptação ao semiárido. A novidade é conduzida pela Associação Norte-Rio-Grandense de Criadores, a Anorc, promotora da maior feira agropecuária do estado.
Além do volume: o que entra na avaliação
A proposta é mostrar que litro cheio no balde nem sempre significa mais lucro no laticínio. Por isso, ao lado da pesagem do leite, a equipe técnica passou a medir cinco indicadores centrais:
- Gordura e proteína: componentes que influenciam o valor nutricional e o aproveitamento industrial do leite.
- Caseína: fração da proteína ligada diretamente ao rendimento na fabricação de queijos e derivados.
- Sólidos totais: tudo o que o leite carrega além da água, parâmetro decisivo para a indústria.
- Contagem de células somáticas: sinal de alerta para a saúde da glândula mamária das vacas.
- Nitrogênio ureico: pista sobre o aproveitamento da proteína da dieta pelo animal.
Segundo o zootecnista Luiz Fernando Trindade, especialista em bovinocultura leiteira ouvido pela organização, o torneio funciona como uma vitrine da evolução genética dos plantéis:
"O principal objetivo do torneio leiteiro é mostrar a expressão genética dos animais. Quando observamos vacas produzindo cada vez mais a cada ano, temos um indicativo de que o melhoramento genético está evoluindo positivamente", explicou.
O técnico destaca que a diferença de composição pesa no bolso. Em um exemplo citado durante a feira, alguns produtores precisam de 11 a 12 litros de leite para fabricar um quilo de queijo, enquanto outros alcançam o mesmo resultado com cerca de 6,9 litros, graças a um leite mais concentrado em sólidos e caseína.
Do laboratório ao curral
As amostras recolhidas na pista seguem para o Laboratório de Qualidade do Leite da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, o Laboleite. Os resultados são lançados em um aplicativo desenvolvido pelo próprio laboratório, que organiza informações sobre produção, metabolismo e sanidade de cada vaca.
Na prática, cada animal passa por três dias de acompanhamento, com três ordenhas por dia, somando nove ordenhas avaliadas. O volume total define o desempenho quantitativo, enquanto os laudos do laboratório revelam o potencial qualitativo. Os dados ainda podem ser cruzados com os registros genealógicos, permitindo relacionar origem, produtividade e qualidade.
"É como quando vamos ao médico e ele solicita exames para entender o que está acontecendo com o nosso organismo. A amostra de leite também fornece informações importantes sobre a vaca", comparou o especialista.
Para o presidente da Anorc, o médico-veterinário Orlando Procópio, a expectativa é transformar a competição em uma sala de aula para o setor. A ideia, segundo ele, é ampliar a troca entre criadores, associações de raça e técnicos, fortalecendo a pecuária leiteira potiguar com decisões baseadas em dados, e não apenas no volume da ordenha.
Conclusão
A experiência estreia em um momento em que a Festa do Boi, iniciada em 9 de outubro, volta a movimentar Parnamirim com exposições, leilões e negócios da cadeia do agro. Para o produtor do Seridó, do Oeste ou do Agreste que acompanha a feira, o recado é direto: seleção genética precisa caminhar junto com nutrição ajustada, sanidade em dia e equipe treinada. Os relatórios do torneio devem servir de referência para as próximas estações de monta e para o planejamento alimentar dos rebanhos no Rio Grande do Norte.
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