Vídeo da PF cita suposta partilha de verba da saúde em Mossoró
Gravação do inquérito da Operação Mederi mostra sócios de distribuidora discutindo percentuais de contratos da saúde de Mossoró; citado como beneficiário ainda não se manifestou.
Por Tribuna RN
Publicado em 24 de setembro de 2026 às 13:16 • 4 min de leitura • Cobertura Regional • Fonte: RSS (Novo Notícias)

MOSSORÓ/RN — Uma gravação que integra o inquérito da Operação Mederi, conduzida pela Polícia Federal, veio a público nesta quinta-feira (24) e jogou luz sobre o suposto mecanismo de divisão de recursos de contratos da saúde no município do Oeste potiguar. Segundo o relatório policial, o vídeo registra uma conversa entre dois sócios de uma distribuidora de medicamentos apontada como peça central do esquema investigado, na qual eles detalham percentuais que seriam destinados a agentes públicos.
O material foi divulgado pelo jornal Diário do RN e coincide com o avanço das apurações sobre supostas fraudes em licitações e desvios de verbas da rede municipal de saúde de Mossoró. A operação que deu origem ao inquérito foi deflagrada em janeiro deste ano, com participação da Controladoria-Geral da União (CGU).
A gravação apelidada de "Matemática de Mossoró"
De acordo com a Polícia Federal, os interlocutores do vídeo são os empresários Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares, sócios da Dismed Distribuidora de Medicamentos. Para os investigadores, a conversa — apelidada nos autos de "Matemática de Mossoró" — exemplifica como funcionaria a repartição dos valores obtidos nas contratações públicas.
Os pontos centrais destacados no relatório da corporação são:
- Percentuais citados: 15% dos valores seriam supostamente repassados ao então chefe do Executivo mossoroense, hoje candidato ao Governo do Estado, e 10% a uma mulher identificada apenas como "Fátima" no primeiro momento.
- Intermediária identificada: com o aprofundamento das diligências, a PF aponta que a mulher mencionada seria uma servidora comissionada da Prefeitura de Mossoró.
- Data do registro: o diálogo teria sido gravado em 13 de maio de 2025, conforme a decisão judicial que embasou a operação.
- Exemplo prático: a partir de uma ordem de compra de R$ 400 mil, a empresa entregaria cerca de R$ 200 mil em medicamentos, reteria parte como margem e reservaria aproximadamente R$ 100 mil para os agentes públicos citados.
Em um dos trechos transcritos no relatório, um dos interlocutores resume a conta nos seguintes termos, segundo a Polícia Federal:
"Dos cento e trinta nós temos que pagar cem mil a Allyson e a Fátima, que é dez por cento de Fátima e quinze por cento de Allyson. Só ficou trinta mil pra a empresa."
A reportagem apurou que, em outro arquivo de áudio da mesma época, os investigados voltam a tratar da partilha mencionando repasses de "quinze do homem e dez disso aí", expressão que a autoridade policial associa ao ex-prefeito Allyson Leandro Bezerra Silva. Todas essas menções constam como elementos de investigação, sem decisão judicial definitiva sobre os fatos.
Volume de recursos e papel atribuído aos citados
O relatório policial sustenta que a distribuidora foi a principal beneficiária dos repasses da Prefeitura de Mossoró no setor, com valores superiores a R$ 13,5 milhões recebidos entre 2021 e 2025. Na tese preliminar dos investigadores, a manutenção dos vínculos contratuais e a liberação de pagamentos — mesmo diante de entregas que, segundo os diálogos gravados, não teriam sido feitas integralmente à rede pública — dependeriam da anuência da chefia do Executivo local, seja por atuação administrativa direta ou por suposta omissão na fiscalização.
A PF também anexou aos autos registros de proximidade social entre o ex-prefeito e um dos sócios da empresa, incluindo uma publicação em rede social de abril de 2024 em que ambos aparecem juntos em clima cordial. O próprio documento policial ressalva, porém, que relações de proximidade, isoladamente, não configuram irregularidade — a circunstância ganharia relevância, na visão dos investigadores, apenas diante do volume de contratos firmados com o município.
Outro trecho interceptado, registrado em arquivo datado de 14 de maio de 2025, traz um dos sócios comentando a destinação das quantias para campanhas eleitorais dos gestores municipais. A corporação destacou ainda que o grau das evidências varia conforme cada citado: no caso dos empresários, haveria confissão direta registrada nos áudios, enquanto em relação ao ex-prefeito constam menções nominais reiteradas sobre percentuais e planos de financiamento de campanhas.
Procurada pela imprensa, a campanha do candidato Allyson Bezerra não havia apresentado resposta até a publicação da reportagem que revelou o vídeo. O espaço permanece aberto para manifestação.
O que acontece agora
O inquérito da Operação Mederi segue em curso, com o material apreendido sob análise pericial em Natal. Na deflagração, em 27 de janeiro, agentes da PF e da CGU recolheram R$ 251.502 em espécie — parte guardada em caixas de papelão e isopor na residência de um dos sócios — além de quatro veículos, 33 celulares, 34 mídias digitais e 114 documentos sobre as relações entre as empresas investigadas e as prefeituras envolvidas. Até a conclusão das perícias e do exame judicial das provas, os fatos permanecem sob apuração, e novos desdobramentos devem ser comunicados pelos órgãos oficiais.
Espaço aberto para defesa: Em conformidade com a presunção de inocência até o trânsito em julgado, o espaço abaixo permanece aberto para eventual manifestação dos envolvidos ou de suas respectivas defesas técnicas, conforme determina o Manual Editorial e Jurídico da Tribuna RN.
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